segunda-feira, 15 de novembro de 2010

NÓS (Eu, você e todos nós)

Que vontade de chora.
Por mim,
por você,
por nós.
Nós, pobre seres:
Nós, seres:
Nós, seremos:
Nós, algo de um todo.
Nós que choramos, tal como um bobo.
Nós. O que será?
Nós. Por que não ser?

(Em frente ao teatro Nelson Rodrigues. Noite quase fria, RJ - Sérgio Santal)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

(...)

O que somos nós senão lembranças dos outros?
Ontem vi um senhor subir a rua defronte a minha casa. Era fim de tarde e ele subia pesado. Eu o via subir. Hoje eu ainda me lembro dele, amanhã, talvez, me lembre, mas e depois?
Viver é irrelevante. Ontem (quase dez anos atrás) tive um grande amor que me motivava a pensar poéticamente. Ele estar morto e a sensação que me sonda é que perdi meu tempo. Hoje ele é lembrança, amanhã ou depois será eternidade.
O que queremos dos outros e o que queremos de nós? Ontem tive ganhos que hoje não tenho mais. Valeu a pena lutar por aqueles ganhos? Irá valer a pena batalhar por alguma coisa nesta vida se amanhã ou depois podemos perde tudo?
Somos pequenos. Dããã! Que conclusão genial! Não cabe em nós tantas vitórias. Então elas (as conquistas) se perdem por que sabem que não há nessa ou naquela existência, lugar para elas.
Somos saudades dos outros. Não somos amor nem ódio. Somos saudades. Saudade representante oficíal do tempo. Temos saudade do futuro. Pois pespectiva é um modo diferente de ter saudade.
Gente, acho que descobri o que é o tempo!


(Sabádo melancólico, Sérgio Santal)

domingo, 17 de outubro de 2010

"QUERO DANÇAR COM VOCÊ! DANÇAR COM VOCÊ!"

Basta uma razão. Uma única só razão para eu me arrumar todo. Por a minha melhor roupa. Enfim, me fazer por bonito e brincar de seduzir. Jogar com os artifícios do encontrar alguém. Pensar em namorar. Seria perfeito: ambos atores, ambos compátiveis, segundo nossos amigos em comum. Vou contar até um. Pois contar até dez levaria um tempo enorme e quando eu chegasse no oito, padeceria de transtorno com a possibilidade de você se afastar antes mesmo de me beijar. Então não vou contar. Vou falar, talvez, o que eu quis te dizer naquela festa e as circustâncias não me deram brechas:
Ei, você dança de uma maneira encantadora! Quer dançar comigo?

Sérgio Santal
(ao menino da Martins Pena que, dizem, parece muito comigo)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Trecho do conto - "QUARTA FEIRA DE MINHAS CINZAS"

Anos passaram e ela, bem velhinha, continuou a repetir aquele ritual em todas as quartas feiras de cinzas. Esperava-o. Sempre dizendo ao filho que seu pai era um pierrô, que não podia está com eles porque sua missão era celebrar a alegria. E quando a alegria do mundo findasse, o que não estava muito longe de acontecer, ele viria morar com eles e o carnaval ganharia mais um dia no ano.



(Sérgio Santal - do livro de contos "Pulhas")

sábado, 25 de setembro de 2010

PARA UM ESCROTO FILHO DA PUTA

Puta que pariu! Olha está morrendo o que nem bem chegou a existir. Está morrendo o que poderia ter sido e, acho, nunca será.
Namorados se pegam olhando-se ávidos por um beijo. Namorados se ligam, em plena madrugada, para ratificar suas saudades. Namorados são assim. A gente não.
E o pior disso tudo não foi ter gastado, sem poder, quinze reais num motel xexelento no centro da cidade e comer o seu cu disforme. O pior mesmo foi ter gastado um real numa rosa vermelha e ter te entregado numa tarde de quinta-feira acreditando na máxima de Fernando Pessoa que dizia:
“Todas as cartas de amor são ridículas”
Você nem deve conhecer Fernando Pessoa. O que comprova nossa inaptidão para estarmos juntos. Você não o conhece mais eu te digo mesmo assim:
“Ridículo foi você, que não soube aproveitar a minha companhia e só queria saber de me chupar.”


Sérgio Santal

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

DO QUE EU GOSTO E NÃO GOSTO (Uma entrevista)

No seu livro de contos "Pulhas" você descreve, em um dos conto, a noite de sábado como uma tormenta. Por que você não gosta de sábado á noite?
- Porquê é um dia e uma hora forçosamente eufórica. Tal como o carnaval.

Então você não gosta de carnaval?
- Ah, eu já respondi isso...

E a sua história com São Longuinho...?
- É...

Você é devoto dele?
- (risos) Digamos que sim.

Por quê?
- É o unico santo que olha por mim. É a prova cabal que o divino está comigo. Eu perco, peço e sou atendido... Onde quer que eu esteja eu pulo em agradecimento.

És católico?
- De jeito nenhum! O catolicismo não tem variante. E tudo que não se renova não me atrai...

Dê exemplo de algo que se renovou em você.
- Ontem eu usava "terno" e "gravata". Hoje eu uso colete xadres e sandália de couro.

A que ou a quem você atribui essa mudança?
- Entendi que a liberdade é inerente ao ser humano.

O que é ser livre dentro do seu conceito?
- É ter a consciência de que a sociedade te reprime por que é mesquinha. Mas você, quanto indivíduo, não pode se censurar. Quando alguém faz uso da liberdade que Deus nos deu, o mundo evolui em um por cento.

Além de fazer uso da liberdade o que falta para a humanidade evoluir?
- Respeitar o silêncio do outro.

O outro te instiga?
- Sim. Por que é mesquino, hipocrita e mediocre . E também por que é capaz de inventar coisas como o celular!

Te apavora a evolução do homem neste sentido?
- Me apavora. A nossa existência se resume a esse aparelho. Há um temor coletivo-moderno que me soa estranho... E esse temor é o medo de ter perdido o celular. Nos apavoramos com essa possobilidade! Mas na verdade não nos apavoramos com o medo de perder um aparelho de merda e sim com o medo de perder o contato com o outro que é o que esse aparelho nos proporciona. A globalização está nos unindo... De manira torta, mas está nos unindo...


(...)



(Sérgio Santal, para uma entrevista concedida a um grupo de estudantes)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

COLEGAS

Porque sou um bom escritor?
Oras, desde que descobri a palavra, ela tem sido o meio e o recurso para eu ser um pouquinho amado neste mundo onde não se ama e nem se é amado.
Quando entrei na adolescência, escrevi uma novelinha inspirada no meu ambiente escolar. A novelinha, ao ser lida pelo meu irmão, foi elogiada por este e, depois e casualmente, uma amiga minha começou a ler a tal novelinha em minha casa. Deu a hora de ela ir embora e ela não tinha concluído a leitura. Pediu-me para terminar a história na casa dela. Consenti e dei á ela outras novelinhas que eu havia escrito. Semanas depois, ao visitá-la em sua casa, uma gratificante surpresa: toda a sua família e alguns vizinhos, tinham lido os meus textos e gostado deles. Comentavam sobre os personagens com tamanha íntimidade que saí de lá me sentindo um gênio! Poderia dizer um Machado de Assis se na época, eu tivesse lido pelo menos o romance "A mão e luva", mas, como eu não tinha contato, ainda, com a sua obra; saí de lá me sentido um Sidiney Sheldon.
Uns anos depois, um pouco mais amadurecido, conquistei um namorado para uma amiga minha. Ela me pediu que eu escrevesse uma carta bemmmm bonita para um certo garoto da sexta série. Escrevi a carta, carregada de romantismo e inspirada nas minha leitura de romances de banca de jornal e, dois dias depois essa minha amiga estava namorando o rapaz. Passei a escrever cartas para essa colega de escola. Ora para ela se desculpar com a mãe, com quem ela não falava a um tempo. Em outra ocasião, escrevi uma carta de rompimento de namoro. Ela se encheu do tal carinha e terminou com ele através das minhas palavras.
Já fazendo teatro, só que na escola, conheci um outra colega que nunca vi em minha existência! Nos correspondiá-mos através da mesa que dividiá-mos na mesma sala de aula, só que em horários diferentes. Ela estudava á tarde e eu de manhã. Naquela época eu tinha o hábito de escreve na certeira onde eu punha o caderno, poemas e anotações acerca do mundo e seus habitantes: nós. Um dia essa minha amiga, que eu nunca vi em minha vida, leu esses meus textos sobre a mesa e escreveu, naquela mesma mesa, um elogio para a minha maneira de escrever e fez até algumas críticas construtivas sobre a minha visão de mundo. Nos correspondemos, via carteira escolar, até o ano letivo findar e, volto a repeti: NUNCA VI ESSA GAROTA NA MINHA VIDA.
No início deste ano, publiquei meu primeiro livro: "Pulhas" e minha recompensa maior é saber que pessoas que nunca leram um livro na vida, passaram a ter gosto por esse hábito através do meu pensamento e da minha palavra.
E tenho dito. Amém.
Sérgio Santal