quarta-feira, 24 de abril de 2013

EU DA RUA

De uma coisa estou certo, esse personagem, que vai nascer daqui a pouco é homem. Um senhor... E sábio! Talvez por viver tanto tempo de rua em rua, conhecendo todas as esquinas dessa louca cidade feita de concreto, ele adquiriu o hábito de observar os outros que iam e viam... Às vezes apressados, rompendo o sinal aberto, correndo cegos, desafiando os carros nas avenidas querendo chegar a algum lugar. A morte, pra quem mora na rua e tem um olhar mais atento, é sempre uma companheira. Vi muitos atropelamentos, muita gente morrer em assalto e muita gente morrer de fome... Eu que vivo na rua tem um tempinho, quase a vida toda, estou esperando meu estomago secar, vazio como um coração sem fé. Um filho meu morreu de fome ainda criança, minha falecida mulher, morreu assassinada depois de ter sido estuprada por um “amigo”, o meu filho mais velho morreu por causa da covardia de dois policiais e o bateram até vê-lo morrer. Vive-se pra morrer e a gente não se prepara para a única coisa que a gente tem de certo.

(Sérgio Santal)

sábado, 20 de abril de 2013

SOBRE CLARICE (minha amada)

Se eu fosse um estudante universitário no começo dos anos setenta, claro, eu faria de tudo para adentrar o apartamento de Clarice Lispector numa tarde qualquer de sábado e tomar um café com ela. Evidente que falaríamos de literatura. E ela, muito tímida, me contaria o que a levou a escrever o breve e denso “Água Viva”.

ELA:

Um amor.

EU:

Amor?

ELA:

Não me pergunte que amor é esse. Se não foi capaz de descobri-lo no livro é sinal que não está preparado para o mistério.

EU:

(Faria um longo instante de silêncio e me serviria de mais um gole de café)

ELA:

(Me ofereceria um tímido sorriso saído dos seus lábios)

EU:

(Me calaria)

Sérgio Santal, 
para um curta metragem sobre Clarice Lispector

segunda-feira, 15 de abril de 2013

ALGUÉM ME ESPERA LÁ (Trecho)

Talvez eu seja o último apaixonado. O último poeta a lhe dedicar um soneto e fazer você chorar. Talvez eu esteja em extinção. É que homens como eu são raros... Quem hoje em dia manda flores? Quem, em pleno século vinte e um, ouve uma música romântica e lembra-se do amor platônico? Quem é platônico nos dias de hoje? Não há poesia para amores não correspondidos. Ninguém escreve mais em cadernos... Ninguém manda cartas. E-mails impossibilitam atos românticos. Os celulares não nos deixam olhar profundamente. Tudo é chato sem atos heroicos! Não se vislumbra mais arco-íris no céu. Quase não se ver mais o céu. Meninos soltando pipas, descalços no meio da rua, onde estão vocês? Sinto falta de cheiro de livro... Queria tanto morrer no seu colo... Vamos cantar Alcione em voz alta! Meu folego está acabando... Sinto que vou findar perante o computador e nada mudará. Por que você é tão cínico? Tão banal? Te vejo refletido nos outros e me entristeço. Você devia ser especial... Não chore... é triste lhe ver tão acuado, como medo de si. Olhe-se no espelho e contemple-se ao invés de se olhar. Verás que anda brincando consigo e não gostará de saber disso. Nós somos o único patrimônio que nos resta. Cuidaremos de nós! Um passo de cada vez, respirar pausadamente e procurar não se surpreender. Um dia após o outro e tudo tomará ares plácidos.


(Sérgio Santal)

domingo, 14 de abril de 2013

GUIDA

Andava tranquila, quase que bailando e, próxima ao céu o viu de perto. Estrelas brilhantes e muitas. Todos os planetas ali. A lua maior que sua imaginação. Não fazia frio e nem calor. O céu era fresco e escuro... Mas um escuro que não a fazia ter medo. Medo no céu era proibido, então ela sorriu. Gargalhou alto, bem alto! Um alto tão alto que fez eco. Deus falando com ela. A voz de deus vem de dentro da gente então ela riu mais alto. E deus ria com ela. O encontro com deus é o riso! Então riremos todos para que deus esteja conosco.

(Do meu livro infantil - Em breve!)

sábado, 1 de janeiro de 2011

DESTEMIDO POR TER CORAGEM

Fechá-se um circulo e iniciá-se um outro. Que venha o ano novo! Nada mais me assusta. Descobri que quando caminhá-se em meio a uma tempestade, sempre se pode contar com um guarda chuva em mãos. Guarda chuva esse que pode estar esquecido em sua bolsa e, por você viver num país tropical, acaba por esquecer esse objeto, genial em sua função: proteger. Ou, também, o guarda chuva pode vim de uma outra mão: um camelô que o venderá por cinco reais na Central do Brasil, para que você possa caminha tranquilo e protegido enquanto o aguaceiro cai em sua volta.
Sérgio Santal

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

PARA UM SABOTADOR DE ILUSÕES ALHEIAS

Vejo os carros correrem pela avenida abaixo dos meus olhos e lembro-me de ti, a me fazer um singelo afago em minha nuca me fazendo pensar, dubiamente: será que é amor?
Eu, que quetinho estava em meu canto, possivelmente pensando em um conto e você, jovem de sorriso sedutor, a me despertar pensamentos que eu jurava já estarem sanados. Que caralho de cancer é esse meu deus? Por que não só uma fodinha casual? Ou, quem sabe, duas fodinhas causais? Tá bom, três fodinhas e não se fala mais nisso.
Pra que querer minha inteligência se não vai saber o que fazer com ela?
Gente, eu não estou apaixonado. Mas tenho medo de me apaixonar e acreditar que você é um príncipe encantado mesmo sabendo que você é, na verdade, um sapo. Um carente é assim, sabe? Idealiza o homem ideal em qualquer coisa. Até em poste.
Falo isso por que já fui um. Ou sou?
Sérgio Santal

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O REAL PRIMEIRO PORQUINHO

Sou um dos três porquinhos. É sério, não riem. Talvez o primeiro, não mencionado na fabula conhecida por todos. Sou aquele que o lobo soprou a casa primeiro. A casa feita de pespectivas.
O primeiro porquinho (na verdade o segundo, o da casa de palha) fechou a porta na cara desse porquinho, pôs achava um absurdo uma moradia feita de pespectivas e, depois que o Lobo derrubou sua sublime casa feita de palha, fugiu para a casa do segundo e os dois, depois que o lobo pôs a casinha de madeira no chão, correram para a casa do terceiro.
Os três trancafiados na segura casinha de tijolos e o real primeiro porquinho (eu), não teve o apoio do segundo porquinho (aquele que vocês consideram o primeiro) e por isso vaga só pela floresta; pois nem o lobo mal o quis.


Sérgio Santal.